Mateus não sabia chorar. Sempre foi assim. Quando pequeno, era um menino comum, sentia medo, raiva, alegria, tudo como todo mundo. Porém, lágrimas, ele não sabia o que era. Já tinha feito inúmeras maluquices para ver se aprendia a chorar. A primeira foi pular de um muro, tentando quebrar o braço. Conseguiu. Fratura exposta. Doeu muito. Porém, nada de lágrimas. Depois das duas cirurgias para colocação de platina, Mateus voltou para casa. Por um tempo, pensou que isso era uma grande bobagem, seria até bom não chorar. Retomou sua vida, prometendo não se preocupar mais com isso. Mas não foi bem assim que a vida fluiu. Na realidade, três meses depois, Mateus teve uma recaída: em um surto psicótico se jogou no meio de uma avenida, desejoso por um atropelamento. Não queria mais chorar, agora, queria morrer por não chorar. Foi atropelado. Mas por uma bicicleta. Na bicicleta estava Tonhão do depósito que bateu tanto em Mateus que, às vezes, acho que teria sido melhor ser atropelado por um caminhão. Depois de três meses no hospital, um mês inteiro em coma, Mateus sai. Lágrimas? Nenhuma. Depois disso, ele mudou, virou um introspectivo, tímido, ou seja, chato pra caralho, desculpe pela palavra, mas não há um adjetivo melhor para mostrar como Mateus ficou chato. Espero que me entendam. Mateus mudou completamente. Não conversava e nem chorava. Não havia expressão no seu rosto. Era como se ele não sentisse nada. As pessoas começaram a dizer que era depressão, que, se continuasse assim, morreria em breve. Estavam enganados, não era depressão. Mateus não sentia mais nada, e, justamente por isso, não podia sentir dor. Ele não sentia nada. Era uma vida sem sentido, literalmente falando. Mas - ainda bem que existe o mas - um dia, enquanto Mateus ia para o trabalho, com sua cara única, constante e sem graça, de Manequim de loja de sacoleira, ele viu um rosto. Estava no ônibus ao lado do seu. Era linda. Uma mistura de Jenifer Lopes com a espontaneidade única de garotas do interior. Ela era perfeita. Mateus a olhou no fundo dos olhos, ela também o encarou. Algo acontecia no corpo de nosso protagonista. De sua barriga subia uma quentura, que o aqueceu completamente. Seus olhos ardiam. A impressão era que ele acabara de encontrar tudo o que faltava em sua vida, apenas com um olhar. No entanto, tudo foi interrompido. O ônibus arranca e vira a primeira esquina. Um último olhar separa os gigantescos instantes que passaram juntos. Mateus sofre como nunca sofrera, apenas com o medo de nunca mais ver aquele rosto ou de nunca escutar a voz daquela linda mulher, que, com apenas um olhar, um único olhar, o fez chorar.
quarta-feira, 19 de maio de 2010
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